sexta-feira, 28 de maio de 2010

Whisky e corações partidos


Sabe aquela banda que você escuta há anos, mas nunca cria expectativa nenhuma sobre a possibilidade de um show em sua cidade? Soa clichê até, já que, geralmente quando gostamos muito de uma banda e recebemos a notícia de que ela irá se apresentar costumamos dizer “por essa eu não esperava”, ou “nunca acreditei que isso poderia acontecer”. Mas essa foi a reação que tive quando fiquei sabendo que uma das minhas bandas favoritas, o Camera Obscura iria tocar em São Paulo. Não esperava porque a banda, embora tendo lançado seu primeiro disco em 2001, existe desde 1996 e nunca tocou por aqui.

O grupo escocês entrou no line-up da 4ª edição do Whisky Festival. Eles se apresentaram nos dias 26 e 27 em São Paulo, no Studio SP e hoje em Recife, no clube Nox.

Assisti ao primeiro show da banda no Brasil na quarta-feira. Passei cerca de duas horas e meia esperando a banda chegar, não quis sair do meu lugar, pois aguardava vê-los cara a cara. Uma e pouco da madrugada o show começa: O guitarrista Kenny McKeeve sobe ao palco com uma taça de vinho, a tecladista Carey Lander com uma cerveja e a líder da banda, Tracyanne Campbell, com um copo de uísque. Timidamente Tracy nos cumprimenta e dá início a primeira música My Maudlin Career, homônima ao último disco da banda, lançado no ano passado (2009).

Até agora quase ninguém comentou (ou simplesmente ignorou este fato), mas o som não estava lá os melhores, Tracyanne reclamou discretamente (mas não tão discretamente para quem estava bem na frente dela, como eu) com os membros da banda que o som, principalmente do violão, não estava legal. O show seguiu com Tears for Affairs, I Don't do Crowds, Teenager, French Navy – single do último disco, que no meio da música Tracy (sim, vou falar sobre ela o texto inteiro) parou de cantar e começou a rir junto com Carey do telão em que estavam sendo projetadas imagens da banda, junto com uns efeitos realmente toscos, mas naquele momento comecei a reparar em sua falta de interesse em fazer um bom show também, não era apenas o som que não estava colaborando. A vocalista também pediu para a equipe de iluminação parar com os efeitos de luz no palco, pois eles já estavam “ficando loucos” com aquilo.

Jamais esperei por uma vocalista simpática e extrovertida. Sei que a Tracyanne, como ela mesmo disse no final do show, é tímida. Mas não me senti bem ao vê-la rindo sozinha ou com Carey sarcasticamente e reclamando o tempo inteiro –substituindo até o violão pela guitarra numa música. É realmente doloroso escrever isso e não poder provar que ela, principalmente, podia ter feito um show diferente. Não sei quando poderei assistir a banda novamente e infelizmente essa é uma lembrança que terei.

Mesmo com o set recheado de canções do álbum novo, como Forests ans Sands e James, The Sweetest Thing e Swans, a banda incluiu algumas músicas mais antigas, como Comeback Margareth, If Looks Could Kill, Lloyd, I'm Ready To Be Heartbroken - uma das mais aclamadas pelos fãs, que rendeu um lindo momento naquela noite. Senti que a banda também curtiu tocar esta música.

Tracy agradeceu aos fãs por terem sido pacientes e esperado esses anos todos pela banda, perguntou curiosa quem eram os sortudos que iriam assistir ao show no dia seguinte, e agradeceu também aos e-mails que os fãs mandaram pedindo um segundo show do Camera Obscura em São Paulo.

Quando faltavam algumas músicas no setlist para tocar eles foram embora. Confesso que neste momento já estava um pouco cansada de ver a líder da banda reclamando e cantando quase todas as músicas sem vontade. Mas de repente o baterista Lee Thompson aparece com uma cerveja na mão, o tímido baixista Gavin Dunbar tomando uma Coca-Cola e, Tracy, recuperando suas “forças” num gole de uísque se volta para o público e pergunta: “anybody here want to hear suspended from class?” E percebi que não iria poder tirar minhas conclusões apenas por aquela noite e abandonar tudo o que sinto pela banda, sim, eles tocaram Suspended from Class e eu tive que perdoar Tracy naquele momento.

A noite acabou com o simpático trompetista Barry Brisacone dando um show a parte em Razzle Dazzle Rose, quando ele toma o microfone principal e faz o solo final da música, que durou pouco mais de um minuto. Em seguida a banda agradece timidamente nossa presença, assim como no começo do show e se despede.

Espero não ter que aguardar mais tantos anos para vê-los novamente, mas que seja num lugar melhor, para eles e para os fãs, que certamente gostariam de ver pelo menos um sorriso (sincero) no rosto de Tracy.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

I fucking love you, Charlyn Marshall!

Pensei que deixaria de acompanhar totalmente a programação da Virada Cultural deste ano, o que de fato aconteceu – aqui na capital. Porém a Virada Cultural Paulista demonstrou uma programação diferenciada, trazendo nomes como Mudhoney, Yann Tiersen e, para minha alegria, Cat Power.

A cantora-norte americana se apresentou no sábado último (22) na cidade de Jundiaí e no dia seguinte em São José dos Campos, no Parque da Cidade, onde estive presente.

O primeiro show da Cat Power que assisti foi no ano passado na Via Funchal, e como já escrevi aqui, foi sublime. A dúvida que ficou esse ano era de como um show com praticamente o mesmo repertório da apresentação anterior pudesse causar o mesmo impacto que causou na fria e intimista noite de julho ano passado, já que desta vez o show era a céu aberto e – sem subestimar ninguém, um público mais genérico, já que, além de fãs, também estavam presentes famílias, políticos entre outras pessoas que foram apenas passar o domingo no parque. Pois é. Foi diferente.

Enquanto o roadie da banda e outros técnicos arrumavam o palco antes do show, a música ambiente oferecida pela produção era da pior qualidade e nada tinha a ver com o público da cantora. Entrando com quase uma hora de atraso - já que os equipamentos sonoros custaram a “funcionar”, Cat Power chega, com um ar tímido no rosto, porém acenando para o público. O microfone chiando e vamos lá: Don’t Explain é a música que inicia a apresentação que, a meu ver parecia condenada devido à má qualidade dos equipamentos. Cheguei a pensar que ela iria desistir e ir embora. Mas o que aconteceu foi o inesperado. Chan nunca esteve tão simpática, declarando seu amor pelo Brasil várias vezes, mandando beijos e fazendo até piadinhas com o público – bem diferente daquela mulher que assisti ano passado em que disse apenas um”boa-noite” para os fãs.

O show seguiu basicamente com teclado, guitarra e às vezes o roadie da banda arriscava algumas músicas na bateria. O repertório incluiu faixas dos álbuns The Greatest, Jukebox e do EP The Dark End of the Street, como Sea of Love, Angelitos Negros, Metal Heart, Song to Bobby, Woman Left Lonely, Live in Bars, The Greatest, entre outras.

Eu tive a sorte de ficar na grade, olhando nos olhos de Chan o tempo todo, porém quem estava entre o palco e a grade eram fotógrafos, jornalistas, diversos políticos e “seus camaradas” e uma banda que quase dormiu no show. Ou seja, tirando aqueles que estavam trabalhando, o “privilégio” de estar mais próximo da cantora foi dado para as pessoas erradas. Eu vi mais flashs dos fotógrafos na cara do prefeito do que nos músicos. Logo no começo do show, Chan Marshall disse que gostaria que todos seus fãs estivessem ali no palco, perto dela. Felizmente seu desejo foi realizado: A cantora assumiu a bateria e junto à guitarra tocaram I wanna ber your dog, dos Stooges e dado este momento, percebi que alguns fãs estavam invadindo a área do palco, driblando os seguranças, e, inúmeras pessoas pularam a grade para se aproximar de Cat Power. A organização não soube muito o que fazer e agradecida, a cantora termina a música e vai ao encontro dos fãs para distribuir flores (das quais ganhei uma!), dar adeus e dizer para seus fãs já enlouquecidos: “I fucking love you” e ir embora.